Another brick the wall

"Minha força está na solidão.
Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas , pois eu também sou o escuro da noite."
Clarice Lispector

Um homem intrigado com seu íntimo , surpreso com seus excessos , com a escassez do próprio gostar , não sabia que podia esconder-se tanto dentro de si , esconder a própria incapacidade de mostrar , ao menos secreto desejo , o desejo de ser útil ao prazer de fugir, à vontade de passar do muro de todos os limites do sonho.
Uma viagem de volta , para encontrar o que foi mudado , para perder o caminho de hoje, desenhado para um tardio amanhã.
Estava perdendo o interesse em si , estava perdido o desejo de sentir.

Para o homem transformado, só o caminho de volta mostraria a direção esquecida , deixada. Voltar no próprio caminho que levou a este nada intrigante e tentar encontrar a sutilidade da alegria de seguir procurando , tentando.

Um homem apressado seguia pelos caminhos de seu pensamento alegre e triste , quase acostumado com suas incertezas , voltava para o afastado , voltava para o que foi deixado. Esperava encontrar , fora de si , alguma esperança para seu íntimo desencontrado.

Seguia saindo de seu lado escuro, seguia com medo de outras surpresas , seguia para muito além de suas esquecidas certezas , corria muito , mas o passado parecia não chegar mais.
A certeza era lugar distante que ele não trazia para dentro dos olhos , para os limites da alegria.
Também a viagem de volta estava num caminho só de ida, para a escassez do próprio gostar , para o esconderijo de uma dor íntima e intrigante.
Precisava extraviar sua bagagem e carregar-se de vagarosas alegrias.
O homem voltava do final de todo fim.
Percorreu a vida , perdeu a certeza , encontrou a dúvida , chegou até a estação final do último destino, desceu , sentou-se no muro do fim daquele mundo , o outro lado da surpresa , voltou-se para o longo caminho , lembrava de quase tudo , embora quisesse perder de vista.

Queria ter ido deixando as bagagens e as vontades , ainda que um pouco fosse inevitável trazer nos olhos , na poeira dos pés , no sonho carregado pelas mãos.
Lembranças empacotadas , saudades reinventadas , voltavam trazendo lágrimas , nem sempre tristes.

De volta para outra viagem , o caminho era conhecido , o fim era esperado.
Mas o que é o fim , senão a possibilidade de recomeçar , o homem pensou , precisava esquecer de pensar , antes , precisava pular o muro...

*Pílula que me veio a mente imediatamente com a volta de Mr J e Mr D .
Vejam e ouçam Another brick the wall , obra - prima do incomparável Pink Floyd: